Caminhada


ELE CAMINHA – entre vitrines e produtos, ele caminha – observa a limpeza dos mármores e a perfeição da grama sempre verde no jardim de passeio – observa o azul da piscina e essa maravilhosa água pura quase se mistura com o infinito mar em um efeito ilusório de uma borda quase invisível – isso é tão sofisticado, tão distante do natural – caminha entre pessoas que sorriem para sempre, como se nunca tivessem sentido tristeza – essas pessoas parecem estar aqui, aproveitando as horas livres adquiridas pelo trabalho, se refugiando nesse pequeno paraíso artificial... seus olhares acinzentados desmentem o sorriso armado em seus rostos impecavelmente tratados – se movimentam ordenadamente de um lado para outro e as artérias desse universo só é levemente interrompida por filas nas lojas ou nos restaurantes – o mar está sempre ao nosso lado com seus sussurros milenares: as vezes calmo, as vezes agitado, mas é impossível vê-lo porque não se pode tê-lo – então o shopping se torna um lugar sagrado e seguro para estes corpos desconhecidos – depois de um tempo ele abandona esses pensamentos híbridos e se diverte porque percebe que não há mal nem sofrimento nesse mundo, só um estado opaco de percepção, uma ignorância cultural que é aceita livremente, sem donos, nem culpados.

(Publicado no Jornal Meio Norte - For Teens - Teresina 04 de junho de 2009)

1 comentários:

Lucas Branco disse...

escrevendo sobre mim?

todos esses olhares acinzentados de quem conquistou a felicidade não me fazem querê-la, tão pouco conquistar o sucesso ou uma carrega promissora e próspera.
E quem se preocupa com essa situação só enlouquece, porque os outros o chamaram de louco e ele chamará a si mesmo quando perceber que não pode mudar muita coisa.

existe olhares além desdes acinzentados?