Quase Lá


O LIXO AMONTOADO NOS BECOS entre os prédios – mendigos dormindo nas calçadas – as escadas do primeiro, segundo e em fim o terceiro andar – diante da porta, minha mão segurou firme no corrimão, quase um vacilo gerado por um misto de ansiedade, medo e esperança – eu suava – paredes rabiscadas, colagens recortadas de revistas – Hey Jude tocando, passando baixinho através da porta – “não carregue o mundo nos ombros – você bem sabe que é um tolo quem finge que está numa boa, tornando seu mundo um pouquinho mais frio” – ouvi – era para mim, mesmo sem ele saber – sentei no degrau da escada perto da porta – uma ação nos separava do perdão – pensei no sorriso dele, na sua beleza simples, na maneira de guiar-se que me inspirava a ser um homem melhor e buscar a iluminação – “escolha uma música triste e torne-a melhor” – um casal se beijava em despedida no segundo andar – ela disse eu te amo e ele disse que também a amava: – passo para te pegar as nove – estarei pronta e linda pra você, você vai ver – então não vai precisar se esforçar – e se beijaram novamente e se amaram em corpo e em palavras mais um vez – também fui embora, antes da próxima canção – não por desistência como está parecendo, mas porque compreendi que nossas mágoas iriam passar e que o amor não suporta o peso da raiva e por isso quando a raiva é superada ela vira mais amor – tudo dará certo, e tudo ficará bem – então eu começava a melhorar.

(publicado no jornal meio norte / for teens - teresina pi 03/02/09)