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NÓS SOMOS AQUELES QUE DECIDIRAM ESTAR LIVRES – nós somos a nossa própria vontade – a liberdade como a compreendemos é o primeiro passo de uma longa estrada sem destino e sem pressa de chegar, pois vivemos quando nos movemos – já não lembramos do antes porque é desaprendendo que aprendemos – nós estamos em harmonia com o caos e compreendemos e vivemos esse leve equilíbrio que é a sublime canção sem som (a junção de todos os sons), pai mãe filho num só espírito, direita esquerda meio, os três sexos – não há como nos encontrar porque não estamos escondidos nem perdidos – não nos reunimos em grupos isolados, não possuímos salas, nem altares, nem guias – nós somos guiados pela luz de dentro que nunca se apaga e por isso sempre existiremos: somos os jovens – e estamos em todas as idades (nunca é cedo nem tarde para ser jovem!) – somos guiados pelo esplendor e inocência dos nossos instintos – abrimos mão da multidão, para andar na multidão tranqüilos e pacíficos, nada tendo e assim, nada perdendo – nós somos as peças do quebra-cabeça que se encaixaram por esforço próprio e da nossa união revelou-se um fragmento da figura toda, o suficiente para alimentar nossos espíritos por centenas de bilhões de tempo com a mais nobre e confortante sabedoria: somos todos inseparáveis e internamente-dependentes! – somos o mesmo ser, pensando ser diferente.

(publicado no jornal meio norte - for teens - teresina 19-11-09)

Movimente-se Como os Bambus



NA PAREDE TINHA UM DESENHO em pop-art do sol e havia estrelas ao redor do sol e ele estava encostado nessa parede com um palito de dentes na boca e sorria de cabeça baixa enquanto eu perguntava sobre a complexidade da energia de um átomo dentro do amor – essa complicação toda da nossa conversa era na verdade uma maneira de fugirmos do amor – decidi não fingir e perguntei no que ele estava pensando, mas ai ele pegou a mochila e nessa hora já estávamos em um ônibus indo pra algum lugar e ele não me respondeu em palavras e por isso fomos sentar na margem do rio e eu coloquei meus dois pés na água e ele colocou os dois pés na água também e ficamos ali em silêncio por um tempo que não me lembro – os pensamentos vinham e passavam como a água do rio e eu era como meus pés: imóvel as mudanças – apenas ali, sentindo um prazer sutil e uma tristeza serena – ele me perguntou se eu realmente acreditava que o amor era eterno – as coisas mudam, ele disse – tudo muda o tempo todo e nessa mudança constante tudo permanece o mesmo – olhei nos olhos dele e senti uma explosão interna que nem sei descrever e disse sem pensar: vamos procurar o Grande Pingüim porque ele tem as respostas – não, rapazinho... vamos ficar aqui com os pés na água, criar raízes e nos transformarmos em bambus!


(publicado no jornal meio norte - for teens / teresina 12/11/09)

Envelhecer


ENTRA O AR - SAI O AR – e seguia assim internamente – cada respiração é um evento inexplicável e o que você está fazendo meu jovem? – a velhinha já não enxerga faz muitos anos – vejo tudo borrado aqui nos oitenta, as folhas das árvores são como fumaça cinza, mas meus sonhos são coloridos e tem as formas das coisas que mais amo: minha antiga casa no interior, meu marido, minhas andanças pelo campo – ele tinha me mandando um cartão-postal nessa mesma manhã: agora vejo tudo colorido aqui nos meus vinte, tenho pintado telas e vou viajar com minha mochila até onde meu corpo me permitir e vou encontrar Van Gogh em algum campo perdido da minha imaginação – a velhinha se emocionou quando me disse: os geriatras são os médicos dos velhos e todo geriatra só pode ser a própria mão de Deus sobre nosso sofrimento decadente, os jovens não sabem que vão envelhecer, se esquecem de nós... – então nessa tarde sai pelas ruas seguindo o conselho daquela senhora: aproveite a juventude dos seus sentidos meu querido, memorize as cores, os movimentos, os sons, pois serão seus companheiros de solidão – quando as luzes dos sentidos se apagarem na velhice você terá a felicidade das sensações de que viu, de que sentiu, de que viveu nessa vida.


(publicado no jornal meio norte / for teens - teresina pi 05/11/09)

Instantes Antes de Acordar


AGORA TENHO UMA ALMA que comprei com meu dinheiro miserável, mas não sei o que fazer com ela – tiro da mochila uma garrafa vazia de saquê e é uma bela garrafa artística, com um desenho de um templo no alto de uma montanha feito com finos traços pela ponta de uma caneta quase mágica e deposito a alma ali – caminho pelo velho centro e pergunto pra todos que encontro o que fazer com ela – são bancários, guardas de trânsito, cobradores, vendedores de espetinhos, políticos, advogados, saxofonistas e alguns amigos perdidos numa rua sem nome e eles estão girando sobre o próprio eixo e gritam palavras que não compreendo, mas me esforço em atribuir significados – a pobre alma se contorce em um possível arrependimento num estado de convulsão que faz a garrafa tremer – para complicar ainda mais meu pesadelo, pessoas se aproximam de mim com curiosidade e posso saber qualquer coisa sobre elas porque seus cérebros estão expostos e projetam um pequeno filme holográfico bem em cima da suas cabeças – alguém me diz: coloque a garrafa na sua estante com uma etiqueta com nome data e situação da compra e essa estante será seu diário das almas – caminho me afastando dessa maluquice toda e deito num banco na praça das flores – olho para o rio que passa por ali e pensamentos brotam na minha mente – as pessoas são algarítimos mutáveis... – o rio passa como tudo passa, como as nuvens passam, como os pensamentos passam, como essa vida que passará – coloco a garrafa delicadamente sobre a água e ela segue sendo levada pelo rio: que os anjos perdidos em navios piratas possam encontrá-la.

(publicado no jornal meio norte / for teens - teresina 29-10-09)

Uma Canção


TOMAMOS SORVETE e conversamos sobre seriados de TV – estávamos dispostos a sorrir de qualquer coisa: dos nossos problemas, sofrimentos, e realizações – fizemos isso e sorrimos de bobagens e de tudo o que parecia sério: a mulher castigando seu filho pequeno, um senhor pedindo esmola, uma fila imensa para pagar contas – porque todas essas coisas passam afinal - isso me lembrou uma cação do Belchior - eu disse e ela pegou sua gaita e começamos a tocar – era uma tarde rara dessas de vida mansa e simples – os peixes na fonte, os pássaros procurando comida e abrigo, arvores dançando, eu e ela com o tempo aberto para reparar nessas coisas – quem se prende nas alucinações do social e passam por essa experiência sem desfrutar de um dia aleatório nas mãos do acaso, é o mesmo que não ter vivido... – ela disse e voltou a tocar a gaita – amar e mudar as coisas me interessa mais, cantei.


(publicado no jornal meio norte / for teens - teresina pi 22/10/09)

O Começo dos Dias

SE EU ATRAVESSAR A RUA e aguardar no ponto de ônibus o mesmo ônibus de todos os dias e entrar nesse mesmo ônibus não haverá nenhuma diferença entre o dia de hoje e tantos que já se passaram – ter te encontrado foi tão especial que esse gesto aparentemente banal de chegar em casa, simplesmente porque em algum lugar das nossas vidas decidimos que precisamos voltar pra casa – me forçaria a maquiar esse dia com as cores de um dia qualquer – não, a partir desse instante estabeleço minha única lei: fazer com que cada dia, com que cada instante seja único e que o espaço entre uma coisa e outra seja plenamente preenchido com o novo (que é também o inesperado) – me abro ao impensável, respondendo aos instintos do corpo no momento em que eles acontecem – para coisas assim não se precisa aprovação – não estou fazendo isso para estabelecer duelos – é reconhecer a sociedade como uma camisa de força e usá-la, claro, mas sem se trancar nela como fazem os estúpidos – então caminhei deixando o ponto de ônibus para trás e também deixei para trás minha vontade de me virar e ver se ele me seguia – para coisas assim não se precisa de aprovação, lembrei – se eu me virar agora para ver se ele me olha estarei mentindo para mim e agindo na esperança de chamar atenção – então não me virei – depois de um tempo os pensamentos já haviam saltados para outros mundos – atravessei a ponte cantando uma canção improvisada.


(publicado no jornal meio norte - for teens / teresina 15-10-09)

Libertando o Futuro


A CENA ACONTECE EM UM BAR NO CENTRO DA CIDADE – com toda aquela agitação caótica de pessoas e carros passando pelas ruas – estamos sentados próximo a uma grande janela de vidro - eu digo: não deposite sua felicidade no futuro, como um trabalhador que se esgota em seu oficio para pagar as prestações da cama e por isso não consegue desfrutá-la – não deposite a felicidade no futuro como aqueles que esperam encontrar alguém especial para amar, mas de tanto viverem na rotina da espera e na esperança do futuro, não são capazes de perceber os encontros do presente – não adie por mais a felicidade achando que lhe falta alguma coisa, mas desenvolva a sabedoria para ser feliz com o que já possui – o barulho da cidade em movimento, nossos olhos nos olhos, o café esfriando, nossas mãos se afastando, a lembrança das horas e o olhar para o relógio – estávamos nos perdendo – é tão raro encontrar alguém que não é só carne, músculos e espasmos – é tão raro encontrar alguém com espírito – não, não estou falando dessa gente que se esforça em ser feliz, são como câncer afinal – meu encantamento são por aqueles que compreendem que o único instante real é exatamente esse – nos afastamos, pertencíamos a tempos diferentes – permaneço aqui – estou aqui – o futuro seguiu desprendido de tudo, arrastando os desavisados para seu alegórico mundo de possibilidades.
(publicado no jornal meio norte - for teens / teresina 08-10-09)