
NA PAREDE TINHA UM DESENHO em pop-art do sol e havia estrelas ao redor do sol e ele estava encostado nessa parede com um palito de dentes na boca e sorria de cabeça baixa enquanto eu perguntava sobre a complexidade da energia de um átomo dentro do amor – essa complicação toda da nossa conversa era na verdade uma maneira de fugirmos do amor – decidi não fingir e perguntei no que ele estava pensando, mas ai ele pegou a mochila e nessa hora já estávamos em um ônibus indo pra algum lugar e ele não me respondeu em palavras e por isso fomos sentar na margem do rio e eu coloquei meus dois pés na água e ele colocou os dois pés na água também e ficamos ali em silêncio por um tempo que não me lembro – os pensamentos vinham e passavam como a água do rio e eu era como meus pés: imóvel as mudanças – apenas ali, sentindo um prazer sutil e uma tristeza serena – ele me perguntou se eu realmente acreditava que o amor era eterno – as coisas mudam, ele disse – tudo muda o tempo todo e nessa mudança constante tudo permanece o mesmo – olhei nos olhos dele e senti uma explosão interna que sem sei descrever e disse sem pensar: vamos procurar o Grande Pingüim porque ele tem as respostas – não, rapazinho... vamos ficar aqui com os pés na água, criar raízes e nos transformarmos em bambus!
(publicado no jornal meio norte - for teens / teresina 12/11/09)





